Minha vó era uma desatualizada, assim como normalmente são as avós. Só não era mais desatualizada que déspota diante de uma revolução. Minto; ela só não era mais desatualizada que o bairro do Campo Grande, com suas fachadas de "O petróleo é nosso" e "Abaixo a ditadura". Porém ela continuava a desfrutar da presente glória de um passado de meio século. Os seus boleros já faziam parte da casa, tanto quanto a tinta da parede ou o carpete mofado que envolvia o piso. A senhora se balançava ao som de Orlando Silva, se embriagava no sotaque de Dalva de Oliveira e consumia uma paixão perdida pela voz grave de Nelson Gonçalves. Suas quebranças de quadris, seus remelexos sem fim, os olhos fechados que parecia estar rezando, tudo antes me entediava. Depois comecei a ver arte naquilo tudo. Escrevi até teses, queria saber que mundo mágico é esse que os mais velhos não conseguem sair. O tempo do rádio, das fotos preto e branco e do casuísmo feminino. A bixinha se renovava a cada dia por algo que nunca mais se renovaria. Pois se até de Chico Buarque ela reclamava, alegando que o mesmo transgredia à boa música brasileira, que dera outros estilos musicais que nem fazem questão de manter a qualidade de outrora.Meus discos eram descartados antes mesmo de passarem pela porta da casa.
Um dia a avó faleceu. A notícia me deixou triste, mas nem tanto. É a ordem natural das coisas.O funeral não tinha tantos choros, ao passo em que não tinha também muitos risos. Acho que a avó já premeditava sua morte, pois antes de seu suspiro final ela escreveu uma carta a cada familiar.A minha mãe ela deu gratidão. A minha tia ela mandou um beijo fraterno. Ao meu pai, que foi seu grande amigo, ela desejou segurança. Porém a mim ela deu algo concreto: a coleção de seus cds antigos. Estava escrito na carta que ela não precisava mais das vozes de seus principais ídolos, pois iria conhecê-los pessoalmente no céu. Avó era legal e remexia bastante. Cada vez que eu vejo uma pessoa dançando a música com os olhos fechados ou se apaixonando mais de uma vez pela mesma canção, eu me lembro dela.
Poema de junho
Há 7 anos
